
Quem desembarcava no Rio em 1925 encontrava uma cidade ainda imersa na fervilhante onda de transformações urbanísticas iniciadas nos primeiros anos do século XX, nos tempos do bota-abaixo. Havia pouco, a então capital da República rompera a barreira de um milhão de habitantes. Era, de longe, a maior concentração urbana do país, com quase o dobro de São Paulo, que vinha na segunda posição, com cerca de 580 mil. Desde então, muita coisa mudou na paisagem carioca. A cidade cresceu ainda mais, ficou gigante. Da região central, ainda dominante há 100 anos, a ocupação avançou para as zonas Sul, Norte e, principalmente, Oeste. Enquanto isso, a população mais que quintuplicou, passando dos seis milhões, segundo o Censo de 2022 do IBGE.
Um século depois, é possível dizer que “o Rio de Janeiro continua lindo” como na música, mas com problemas — e oportunidades também, claro — que se expandiram na mesma proporção. A cidade avançou em praticamente todas as direções, inclusive para o mar, com uma série de aterros, e para o alto, com edifícios cada vez mais imponentes. Bairros surgiram, vias importantes foram abertas, favelas foram removidas e outras tantas foram criadas com a mesma precariedade. A mancha urbana se espalhou para áreas distantes, muitas vezes sem os serviços adequados, num espraiamento hoje criticado, que se tenta conter.
Para o arquiteto e urbanista Denis Gahyva, pesquisador do Instituto Pereira Passos (IPP), o crescimento do Rio obedece a um caminho comum a outras grandes cidades do mundo: o dos trilhos.
— As linhas da Central do Brasil e da Leopoldina foram fundamentais. As linhas de bonde também desempenharam papel crucial, especialmente para os bairros da Zona Sul, como Copacabana, Ipanema e Jardim Botânico, que se desenvolveram a partir desses acessos — destaca Gahyva.
Malha viária
A mesma lógica se deu com os grandes eixos viários.
— O principal eixo viário antigo da cidade é a Estrada Real de Santa Cruz, que hoje se divide em vários trechos: como a antiga Suburbana (na Zona Norte) e a Avenida Santa Cruz (na Zona Oeste). Isso foi fundamental para a penetração rumo ao sertão carioca — diz o pesquisador.
Para Rafael Soares Gonçalves, historiador e professor da PUC-Rio, esses últimos cem anos já começaram sob o signo da mudança, com o arrasamento do Morro do Castelo, que repaginou toda a região do Centro. Depois disso, vieram as avenidas Presidente Vargas e Brasil, decisivas para o redesenho da cidade e sua expansão em direção ao subúrbio. É nesse momento, segundo ele, que também começa a aumentar o processo de favelização:
— O Rio tinha um quadrado muito específico, que era esse eixo mais central, com algumas expansões para Botafogo e São Cristóvão. Nos anos 1940, ela ganha uma proporção maior. E aí a gente começa a ver a dimensão das favelas. Parte dessas comunidade vai seguir, vai crescer também em áreas periféricas, mas há uma forte concentração nas áreas mais centrais, sobretudo, no eixo da Zona Sul.
Década de 1920
Evolução da mancha urbana da cidade
Esse período em que se constrói em direção à periferia é o momento de consolidação da ideia de divisão da cidade por zonas, e Copacabana ganha destaque como o protótipo da Zona Sul dourada no imaginário carioca.
Já na década de 1960, o Rio perde o posto de cidade mais populosa do Brasil, sendo ultrapassada, pela primeira vez, por São Paulo nas medições do IBGE. Essa não foi, no entanto, a principal mudança: com a chegada de Brasília, vem a perda do posto de capital federal.
— A gente tinha uma centralidade que acabou perdida em termos políticos. Houve um certo esvaziamento econômico também. São Paulo já vinha absorvendo grande parte das indústrias, num processo contínuo desde pelo menos os anos 1920 e 1930 — afirma Gonçalves.
Mesmo sem o status de capital, porém, o Rio manteve sua importância simbólica, cultural e política no Brasil. A cidade continuou sendo palco de eventos relevantes, visitas de chefes de Estado e manifestações populares, algo que pode ser visto em parte do acervo sob guarda do Arquivo Nacional, por exemplo. São registros que, embora muitas vezes vinculados a agendas oficiais, capturavam simultaneamente aspectos da vida urbana em transformação, como o adensamento da Zona Sul, a urbanização crescente da Zona Oeste e o fortalecimento de rituais urbanos como o carnaval e o réveillon.
— O interessante é que esses registros oficiais não mostram só a cerimônia política: eles registram a cidade, o crescimento urbano, a paisagem. Você vê a Lagoa, a mancha urbana da Zona Sul, os jardins, a Floresta da Tijuca. Então, mesmo que o título de capital tenha passado para Brasília, o Rio continuou sendo esse grande palco simbólico do país — observa Claudia Beatriz Heynemann, doutora em História e pesquisadora no Arquivo Nacional.
Com Destino à Barra
Nesse cenário, entre os anos 1920 e 1970, o crescimento do Rio teve ainda forte impulso da indústria. Bairros como Gávea, Tijuca, Andaraí e Vila Isabel se desenvolveram em torno de fábricas, acompanhados das chamadas vilas operárias.
Só na década de 1970 começa, para valer, a marcha rumo à antiga Baixada de Jacarepaguá, uma grande extensão de terra ainda pouco explorada e que inclui Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes — uma nova fronteira carioca.
— Na Barra e em Jacarepaguá, o processo de ocupação foi mais complexo. Os maciços da Pedra Branca e da Tijuca criavam uma barreira, isolando aquela região toda. Para se ter uma ideia, o acesso se dava por caminhos antigos de tropeiros, como a atual Grajaú-Jacarepaguá. A ocupação efetiva da Barra da Tijuca começou mesmo no início da década de 1970, a partir de três núcleos importantes: a Vila Balneária, que é a atual Barrinha; o Tijucamar e o Jardim Oceânico. Foi a partir dali que a região se expandiu aos poucos — explica Denis Gahyva.Esse processo pode ser medido pelo aumento da população. Embora os dados por bairro disponibilizados pelo IBGE abranjam apenas os três últimos censos, é possível notar que o ritmo seguiu acelerado no século XXI. Na Barra, por exemplo, a população saltou 63%: de pouco mais de 92 mil em 2000, para mais de 150 mil em 2022. No Recreio, os números são ainda mais impressionantes: de 37,6 mil para 140,4 mil — 273% — no mesmo período. Em Jacarepaguá, o aumento foi de 100,9 mil para 217,4 mil (115%).
Para efeito comparativo, bairros de ocupação bem mais antiga, que já tinham arruamento definido e iluminação pública bem desenhada em 1925, ficaram estáveis, com leve decréscimo. Botafogo passou de pouco mais de 78,3 mil moradores para 76,7 mil. No Centro, que tem reunido esforços de repovoamento por parte da prefeitura com investimentos em infraestrutura e incentivos a empreendimentos imobiliários, o baque — agravado pelos efeitos da pandemia de Covid-19 — foi grande: de 41,1 mil (2010) para 23,8 mil (2022). A Zona Oeste concentra os bairros mais populosos do Rio neste século: Campo Grande, com 352,4 mil, e Santa Cruz, com 249,1 mil encabeçam a lista, de acordo com o Censo 2022, ambos com tendência de alta nos três últimos levantamentos.
Novo perfil
Os dados do recenseamento mostram que houve outras modificações desde 1925. Na década de 1920, a cidade era composta por 43% de jovens com menos de 15 anos. Os idosos, aqueles acima de 50 anos pela métrica da época, eram 9,7% da população. Mais de 20% dos habitantes eram estrangeiros, em sua maioria portugueses, italianos e espanhóis. Hoje, os jovens representam 16% do total, e as pessoas com mais de 60 anos são 20%. Já os estrangeiros não passam de 0,5%.
— Outro dado interessante é que a população rural ainda crescia nas décadas de 1920 e 1930, representando pouco mais de 30% dos habitantes do Rio. Hoje, esse percentual é quase zero. O último censo contabilizou 59 pessoas vivendo em áreas rurais ali no setor de Santa Cruz — explica o demógrafo César Marques, professor e pesquisador da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), do IBGE.
Na educação também houve mudanças. A cidade, que em 1920 tinha 25% de analfabetos (e 33% entre as mulheres), inverteu esse cenário. Hoje, aproximadamente 25% da população acima de 18 anos possui ensino superior completo. E as mulheres são maioria entre os universitários.